A luta das mulheres no Chile que despertou

A deputada Isa Penna entrevistou Alondra Carrillo, porta voz da La Coordinadora Feminista 8 de Marzo (Coordenação Feminista 8M), coalizão de movimentos de mulheres que paralisou cidades no Chile ao longo das manifestações populares ocorridas desde o final de outubro em todo o território nacional.

Como estão as ruas no Chile, recebemos notícias mas não sabemos se são confiáveis. 

Os protestos começaram na sexta-feira, 18 de outubro, quando o governo anunciou um aumento da tarifa de transporte em 30 pesos. O que aconteceu inicialmente foi que  os estudantes secundaristas se concentraram em pular as catracas das estações e bloquearam vias públicas. Eles decidiram que não iam pagar o metrô e não iam tolerar o aumento. O apoio foi massivo.

 

Para nós chegam notícias de muita violência, pode descrever como estão as ruas no Chile?

Desde o momento em que o presidente Sebastián Piñera colocou a polícia nas ruas tem havido repressão muito violenta. Os militares saíram na rua na sexta feira e as pessoas saíram com panelas e colheres para fazer ruído, com manifestações, barricadas. E o Estado chileno começou o processo de repressão.

Por que tantas pessoas morreram nos últimos dias?

Porque os militares dispararam contra o povo, contra as multidões nas ruas. E o Governo chamou de forma explícita que pessoas saiam às ruas para defender a ordem, um chamado às bases da extrema direita.  

 

O governo está jogando povo contra o povo?

Sim,o Piñera deu uma declaração dizendo que estamos em guerra.

 

 A esquerda brasileira está tentando entender o cenário chileno. Na sua avaliação é um movimento popular que tem um programa, que tem um objetivo, reivindicação?

Podemos dizer que há uma reivindicação por trabalho, seguridade social, um novo sistema de pensões, saúde, com a democracia, com perspectiva constituinte, outra com reprodução social, movimento feminista, aborto. Há uma infinidade de demandas que surgem de uma situação de precarização radical da vida da classe trabalhadora.

 

Aqui no Brasil estamos assistindo à reforma da previdência, trabalhista, precarização do serviço público e no Chile vemos uma referência do que é o resultado da aplicação dessa políticas, qual é situação da população mais pobre, as mulheres, o que vemos é um estado de convulsão social generalizado. Pode descrever um pouco sobre isso?

No Chile houve uma ditadura muito longa, transformado o regime trabalhista, destruindo os sindicatos que unificavam os trabalhadores e obrigando os sindicatos  a se organizarem apenas a nível de empresa que possibilitam uma transformação do sistema de pensões entregando para empresas privadas que podem especular e intervir em pensões de trabalhadores miseráveis.

 

Esse modelo do Chile é justamente a referência que o Paulo Guedes usa aqui no Brasil para aplicar a reforma da previdência. 

Também tem as reformas no sistema de saúde. Criaram dois sistemas de saúde paralelos. Um sistema é o Fonasa, que é público, e o Isapre, que é privado. A maior parte do sistema público é destinado para o financiamento de clínicas privadas. Hoje, os hospitais estão carentes de suprimentos, de insumos básicos. Eles estão impossibilitados de tratar as doenças mais graves, muita gente morre na fila de espera do sistema público de saúde.

 

"Há uma infinidade de demandas que surgem de uma situação de precarização radical da vida da classe trabalhadora"

 

Aqui no Brasil nós vemos isso com o Sistema Único de Saúde. Os governantes estão com o objetivo de privatizar. E a educação? Você disse que os estudantes têm um papel muito importante. No Brasil, vivemos um processo parecido. A população tomou um lado. Você acha que os lutadores são a maioria? Você disse que a extrema direita está crescendo.

No Chile, existem duas posições políticas grandes. Uma é a direita ligada diretamente à ditadura e outra é o centro, a concentração da maioria que governou o país durante a maior parte do tempo da ditadura, composta por todos os partidos que apoiaram o golpe de estado. O partido mais forte deste conglomerado é um partido golpista, a Democracia Cristiana. Tem outros, como o Partido Socialista que tem uma perspectiva redistributiva, mas manteve as mudanças básicas feitas pela ditadura civil-militar.

Você pode falar um pouco sobre o papel das mulheres? Fala um pouco sobre a importância da greve geral nesse processo.

As violências sexuais estão atreladas às manifestações mais brutais da forma que o Chile se organiza política e socialmente. Para poder enfrentar essa violência mais profundamente, é necessário um programa amplo, que foi o que apresentamos para a Greve Geral Feminista do 8 de março. O que aconteceu neste 8 de março foi que ele foi protagonizado pelas mulheres da dissidência, a maior mobilização social pós- ditadura. E estão pressionando as mobilizações atuais. Uma é a Greve Geral e outra é a criação de um programa interseccional contra a precarização da vida. 

Foram 72 cidades que se mobilizaram para construir o Encontro. Você acredita que, o movimento de mulheres está tendo um papel central para as lutas deste momento?

Eu penso que nós estamos nos mobilizando de forma significativa. Hoje estamos presentes nas ruas junto com toda a população, mas o que aconteceu e nos fez sair deste processo é que temos a Coordinadora Feminista 8M que tomou algumas iniciativas no contexto desta mobilização. Iniciativas contrárias à imobilidade e burocracia das centrais sindicais que se negaram a chamar uma greve. Nós pusemos tudo na mesa, convocamos outras organizações para levantar a greve geral e como organização feminista, levantar também a necessidade de assembleias populares para tratar sobre cuidados, abastecimentos e segurança nesta conjuntura. 

Você tem alguma ideia do que pode acontecer no Chile? Você começa a enxergar uma saída? Qual a opinião de vocês?

É complicado imaginar uma saída nesse momento. Já está começando a acontecer um diálogo entre as forças políticas supostamente de oposição e o governo. Essa manifestação foi inorgânica e o que está acontecendo agora é que os setores organizados como o Partido Comunista e a Frente Ampla estão tratando de organizar a mobilização, constituir alguma liderança popular de um movimento social e sentar com um programa mínimo para negociar com o governo. 

E vocês concordam? 

Não. É complexo porque esse programa mínimo que estão levantando não está alinhado com os processos sociais mais transversais que aconteceram no último tempo e tampouco tem uma visão feminista. Ele corresponde ao processamento rápido da burocracia sindical. 

O que nós vemos que são muitas possibilidades e nenhuma delas vai dar conta totalmente do que este movimento pôs sobre a mesa. Existem duas grandes saídas possíveis. Uma é que o governo se mantenha e a outra é que a acusação constitucional contra Sebastián Piñera tome força e que este governo seja deposto. Acho que qualquer uma dessas saídas é uma medida rápida para esta situação. Mas esta situação não é somente porque o povo está cansado de viver da forma que vive hoje. Já tem muito tempo que estamos cansados de viver assim e isso nunca tinha acontecido. O que estamos assistindo é um momento de crise estrutural da forma que a sociedade chilena é organizada e qualquer medida que for tomada agora vai ter consequências em pouco tempo. 

Pelo que entendi, existe uma divisão entre a esquerda que é mais vinculada a um projeto de conciliação, que busca uma saída mais rápida. Enquanto vocês não enxergam que isso é possível, entendem que é necessário construir uma alternativa ao sistema político chileno. Por que isso ocorre?

Tem a ver com que falávamos antes, da destruição quase total de organizações da classe trabalhadora. Não só dos sindicatos, mas organizações políticas da classe. Nós compreendemos que o movimento feminista no último período é um movimento da classe trabalhadora. Que é possível avançar em novas capacidades políticas próprias, autônomas, com independência. 

O que o movimento de mulheres propõe para este momento? 

Primeiro, eu diria que tirar os militares das ruas. Uma segunda tarefa tem a ver com construir organização territorial, nestes locais onde está a extrema-direita está avançando, apresentando um debate nacionalista e criminalizador. Buscam reprimir as formas de manifestação de ação direta. 

Qual a posição do movimento das mulheres sobre as ações diretas?

Não há uma linha única, mas até agora não existe uma condenação dessa forma de atuação. Existe um repúdio à violência contra os pequenos comércios, um chamado ao autocuidado. Uma auto organização para evitar violência do povo contra o povo. 

Você vê a possibilidade de parte dos militares mais precarizados apoiarem as lutas?

Não, os militares possuem uma formação terrorista, contra a insurgência popular. Até agora, os policiais contribuíram para um cenário de caos. Temos registros de centros de tortura, muitas denúncias de violência sexual. O Instituto Nacional de Direitos Humanos denunciou a existência de um centro de tortura clandestino no interior das estações de metrô. Como sempre foi feito pela polícia militarizada, estão acontecendo abusos sexuais e ameaças de violação com fuzil contra as mulheres presas.

"Hoje, os hospitais estão carentes de suprimentos, de insumos básicos"

Quantas pessoas estão presas?

Não existem pessoas em cárcere, as pessoas são detidas e soltas no mesmo dia ou no dia seguinte. A maioria das pessoas que está sendo detida é porque está na rua após o horário do toque de recolher. 

Qual o horário do toque de recolher?

Muda todos os dias. Se sabe o horário porque decretam na televisão. Existe um conflito agora, porque muitas das coisas que têm sido feitas no contexto do estado de emergência não são constitucionais. E uma das coisas inconstitucionais que têm sido feitas são os militares decretando o toque de recolher, quando não é sua competência.

Existe alguma possibilidade de unidade da esquerda no próximo período?

Está se desenhando um processo de unidade, que tem a ver com construir coletivamente, em assembleias nos territórios, pensar em um programa de maneira conjunta. A verdade é que o desafio para esquerda construir unidade tem muito a ver com o balanço que irá se fazer sobre esse processo de revolta popular que está acontecendo. O que pode sair desse balanço é o que vai construir as condições para uma revisão crítica da atuação dos setores políticos que formam a esquerda, e para poder configurar algumas linhas de atuação. Creio que uma das coisas que pode ser possível tem a ver com reconhecer e interiorizar o lugar que hoje tem o feminismo. Entender o feminismo como um dos setores capazes de produzir uma articulação ampla e transversal de setores sociais e políticos. 

O que podemos fazer aqui no Brasil para ajudar?

Um pedido feito por muitas organizações é se concentrar nas embaixadas do Chile para fazer ações concretas de solidariedade, sei que já fizeram isso. Outra forma é também visibilizar todas as denúncias de violência estatal, especificamente de violência política sexual, que podem empurrar a responsabilizar o governo, que tem uma atuação criminosa, que propicia isso com suas declarações e decisões políticas. 

Por fim, qual é o seu recado para as mulheres brasileiras?

Nós, quando estávamos organizando o 8 de março, dizíamos que não somente no Chile, mas também aí, passamos por um vértice histórico, em um contexto de crise mundial capitalista. E que nesse vértice histórico, existiam basicamente duas alternativas: encarar a extrema direita, o que implicava na guerra de pobres contra pobres, mas, por outro lado, a possibilidade aberta por um feminismo internacionalista, que pode desenhar um novo projeto para esse momento histórico. Essa linha segue sendo atual. Para nós, a atuação de um movimento feminista internacional, com capacidade de oferecer orientações políticas para a conjuntura crítica que estamos, é uma das tarefas principais que temos que assumir. Isso implica em traduzir a solidariedade internacional ao que estamos enfrentando, uma capacidade política compartilhada para conter o avanço da extrema direita e para poder contribuir para a reorganização da nossa classe de forma internacionalista. 

"Para poder enfrentar essa violência mais profundamente, é necessário um programa amplo, que foi o que apresentamos para a Greve Geral Feminista do 8 de março."